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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Revolução Russa Segundo Maurício Tragtenberg

A Revolução Russa Segundo Maurício Tragtenberg

Nildo Viana*

A Revolução Russa foi um dos acontecimentos históricos mais importantes do século 20. Ela foi palco de calorosos debates, análises, disputas, e acabou sendo fonte inspiradora de lutas e ações políticas posteriores. A versão dominante da Revolução Russa foi amplamente divulgada, sendo que a versão dos vencidos foi relegada à marginalidade. No Brasil não foi diferente. Aqueles que discutiram a Revolução Russa reproduziram a versão oficial da historiografia e deixaram de lado as ricas experiências proletárias e camponesas, o significado histórico fundamental e revolucionário dos sovietes (conselhos operários), a esquerda dissidente e suas críticas ao regime bolchevique estabelecido. Uma rara exceção existiu no seio da intelectualidade brasileira e foi representada por Maurício Tragtenberg, que fez reemergir a perspectiva do proletariado no que se refere ao marxismo e às lutas heróicas do proletariado. Assim, as duas reedições da obra de Tragtenberg, A Revolução Russa[1], é antes de tudo uma necessidade, mas também é uma brecha para que a verdade sobre este acontecimento histórico reapareça.

Compreender a obra significa compreender o autor. Da mesma forma, compreender o autor significa compreender a obra. Maurício Tragtenberg foi um dos mais importantes sociólogos brasileiros e exerceu influência sobre inúmeros intelectuais, amigos, alunos. O sentido da vida e obra de Tragtenberg foi, a nosso ver, a luta pela autogestão, e não, como alguns podem pensar, “uma vida para as ciências humanas”. Tragtenberg nasceu em Erexim, Rio Grande do Sul, no dia 4 de novembro de 1929. Morou algum tempo em Porto Alegre e posteriormente mudou para São Paulo. Freqüentou o Centro de Cultura Democrático, movimentos de jovens judeus, Partido Comunista Brasileiro, Biblioteca Municipal de São Paulo, família Abramo, Partido Socialista Brasileiro e Centro de Cultura Social, de orientação anarquista. Desde os 10 anos lia Rosa Luxemburgo, Trotsky e vários outros, pois tinha acesso a uma ampla bibliografia, cuja origem era o acervo de familiares, bibliotecas, partidos, etc. Manteve contato com intelectuais como Antônio Cândido, Azis Simão, entre vários outros. Aliás, foi Antônio Cândido que lhe informa da possibilidade para entrar na USP através da proposta de uma monografia, desde que essa fosse aceita. A monografia, depois publicada como livro (Planificação: Desafio do Século 20), foi aprovada e assim ele passou a fazer parte da esfera acadêmica. Na esfera acadêmica, produziu várias obras, com destaque para sua tese Burocracia e Ideologia, além de diversos livros, bem como prefácios de outras obras, organização de livros e artigos para revistas e jornais. Chegou a ser colunista do jornal Notícias Populares, visando atingir um público composto por trabalhadores.

Alguns temas foram recorrentes e fundamentais em sua produção, tais como a questão da burocracia, a obra de pensadores como Marx, Weber e Bakunin, a autogestão social, as lutas operárias, a autonomia e auto-organização do proletariado e campesinato, autores “marginais” ou “malditos” como Rosa Luxemburgo, Makhaïsky, Korsch, Bordiga, Pannekoek, Gorter, etc.

A preocupação de Maurício Tragtenberg com a burocracia se manifesta em sua primeira obra, a monografia-livro Planificação: Desafio do Século 20, no qual aborda a questão da burocracia, iniciando com uma discussão sobre alienação, natureza humana e classes sociais, para encerrar com uma análise do bolchevismo, da burocratização da Rússia e do capitalismo de Estado. Ele encerra apresentando a alienação como sendo provocada pela divisão social do trabalho e que a reintegração do homem na humanidade e sua essência só pode ocorrer através do socialismo, que realizaria a emancipação humana. Sua obra Burocracia e Ideologia, oferece uma análise da formação e características das teorias gerais da administração, abarcando um amplo espectro histórico (do modo de produção asiático ao capitalismo) e ideológico (de Saint-Simon a Max Weber). As teorias gerais da administração são consideradas por ele como ideologias, formas de falsa consciência, representando os interesses das classes dominantes, que são operacionais no nível técnico e que mudam de acordo com a mudança nos processos econômicos e sociais. O tema da burocracia é retomado em Administração, Poder e Ideologia, que aborda o problema das grandes corporações e questões como a co-gestão, o participacionismo e outras formas que as grandes empresas utilizam para enquadrar e integrar os trabalhadores. A crítica da burocracia continua em Sobre Educação, Política e Sindicalismo, mas desta vez focalizando a burocracia escolar e universitária.

Outro tema fundamental na obra de Tragtenberg é o da educação libertária e da autogestão das lutas operárias. A educação está presa nas malhas da burocracia, mas é um processo contraditório, havendo brechas e possibilidades, lutas que são definidoras da produção, apropriação e expropriação do saber. Daí a presença em sua obra do tema da “pedagogia libertária” ou “autogestão pedagógica”. Por isso ele analisava os educadores libertários (Francisco Ferrer), e as experiências históricas (a autogestão pedagógica na Espanha). Isto estaria ligado ao processo de constituição de uma nova sociedade e, retomando Marx, entendia que tal processo seria resultado da luta da classe operária, de sua auto-educação e auto-organização. Segundo Tragtenberg, em Reflexões sobre o Socialismo, apesar da tendência à burocratização, a classe trabalhadora nega este processo criando organizações horizontais, igualitárias, novas relações sociais. A chave para entender a formação de uma nova sociedade está no desenvolvimento destas formas de auto-organização do proletariado. No seu processo de luta, de auto-organização e associação (comissões de fábrica, comitês de greve, conselhos operários), se encontra o embrião da futura sociedade autogerida. É aí que se encontra a razão de sua crítica aos partidos e sindicatos, bem como sua oposição ao capitalismo de Estado (“socialismo real”).

É neste contexto da produção teórica de Tragtenberg que podemos compreender melhor o seu livro sobre a Revolução Russa. Tragtenberg analisa a pré-história da Revolução, analisando a Rússia Imperial, a evolução do czarismo, as rebeliões camponesas, a igreja. Depois analisa a sociedade russa pré-revolucionária, no qual apresenta um panorama das classes sociais existentes neste período, os debates entre as tendências políticas, e a Revolução de 1905 e o papel dos partidos políticos. O processo da Revolução Russa é a parte seguinte, na qual aborda a revolução camponesa na Ucrânia, a instauração do regime bolchevique, a revolta de Kronstadt, a questão sindical e a Oposição Operária de Alexandra Kollontai, os Sovietes e seu esvaziamento pelos bolcheviques, e diversas questões postas no processo de luta de classes na Rússia deste período (ditadura do proletariado, questão nacional e colonial, assembléia constituinte).  

É neste contexto que ele apresenta, na parte final, a discussão sobre o partido político. Ele questiona o centralismo democrático e aponta suas conseqüências. Segundo Tragtenberg, “as revoluções que procuram mudar as relações de propriedade e não somente as pessoas que governam, instaurando um novo modo de produção, não são feitas por partidos, grupos ou quadros, mas resultam das contradições sociais que mobilizam amplos setores da sociedade”. O papel do Partido Bolchevique foi promover uma contra-revolução. O partido passa a ser um estado burguês em miniatura e defender o liderismo e centralismo. O partido reproduz a mentalidade burocrática e cria ideologias para se justificar e legitimar, isto, tal como a ideologia leninista da nulidade operária. O partido assume o poder estatal e toma conta da sociedade, realizando uma aliança entre a burguesia de Estado e a tecnocracia, o que promove a implantação do capitalismo de Estado. O substitucionismo apontado por Trotsky em seu período de juventude e em polêmica com Lênin (O partido substitui a classe; o comitê central substitui o partido; um ditador único substitui o comitê central) se realiza na realidade concreta. O bolchevismo já era ideologicamente o que se tornou praticamente a nível nacional, ou seja, foi o promotor do capitalismo estatal. As ideologias e ações do Partido Bolchevique confirmam a tese do substitucionismo: as teses defendidas por Lênin (gestão individual das empresas) e Trotsky (a militarização dos sindicatos) e a prática efetuada por ambos (massacre na Ucrânia e em Kronstadt) são manifestações concretas de algo que já estava em germe, em alguns casos, ou já estavam desenvolvidas, mas sem aplicação prática.

Assim, Tragtenberg faz uma revisita ao processo histórico da revolução russa partindo da perspectiva do proletariado. Neste sentido, esta obra de Tragtenberg (mas não só esta) mostra como a perspectiva do proletariado está presente na análise histórica e na reconstituição histórica. Trata-se de uma questão discutida na historiografia, mas sob a forma relativista e geralmente com tendência individualista. A reconstituição de um fenômeno histórico é realizada tendo por base as informações existentes sobre ele, as ferramentas intelectuais e analíticas de quem a faz, os valores, sentimentos, concepções e interesses do mesmo, que estão na base da escolha e formação destas ferramentas intelectuais.

A concepção cientificista segundo a qual bastaria ter um instrumental metodológico e/ou uma abordagem supostamente teórico-sistemática para dar conta da reconstituição do fenômeno histórico é ilusória e nada tem de inocente. Esta concepção revela uma perspectiva de classe, que está na sua base e também dos “métodos” e “teorias” apresentados como a solução mágica para chegar ao “conhecimento científico”, sendo, na verdade, construções ideológicas, metafísicas e reificadas. O seu oposto, o relativismo, já abandona a pretensão da verdade e se refugia em outras ideologias metafísicas e imprecisas, fazendo do descompromisso ou do compromisso duvidoso a sua máxima e seu guia. Assim consegue disfarçar a perspectiva de classe que está na sua base.

Na obra de Tragtenberg, nenhuma destas alternativas se encontra presente. A história da Revolução Russa é apresentada em seu processo social de constituição, perpassado pela luta de classes, pelos desdobramentos destas lutas, pelas formas organizativas, intelectuais e ideológicas que assume, num processo analítico que não apenas mostra as forças em luta, mas suas debilidades e, principalmente, como o discurso dominante, burocrático-bolchevista, é ideológico, uma falsa consciência sistemática da realidade, e, ao mesmo tempo, eficaz, mobilizador e legitimador da exploração do proletariado pela burocracia metamorfoseada em burguesia de Estado.

Isto é perceptível, por exemplo, na análise que ele faz do economista Preobrajenski. Este ideólogo bolchevique irá escrever a obra “A Nova Ciência da Economia”, na qual discute as leis gerais do capitalismo e do socialismo. Ele produz a tese da “acumulação socialista primitiva”, na qual existiria, tal como na época de surgimento do capitalismo existiu a “acumulação primitiva de capital”, a pilhagem. Tragtenberg coloca que, para Preobrajenski, “a acumulação socialista aparece de duas formas: pela redução do salário dos operários e funcionários do Estado ou à custa das rendas dos pequeno-burgueses e capitalistas. Pelo controle dos impostos, o setor socialista poderá apropriar-se da mais-valia do setor privado”.

Isto tem como conseqüência o reforço do setor socialista da economia e do aparato partidário. Os setores que seriam pilhados seriam, fundamentalmente, os do setor privado, que, naquele momento, eram os camponeses e outros setores (dependendo do momento histórico). A tese, já presente em Engels e Lênin, da “segunda luta”, agora entre proletários e camponeses, é retomada e serve como justificativa e legitimação da superexploração do campesinato.

A questão da perspectiva de classe aparece neste exato momento. Em primeiro lugar, o paralelo entre revolução burguesa e proletária expressa uma perspectiva de classe por parte de Preobrajenski. Suas teses apontam para confundir revolução burguesa e revolução proletária, propriedade estatal com “setor socialista”, acumulação primitiva de capital com produção de excedente no socialismo, etc. Ora, a confusão, ou seja, a fusão de duas coisas radicalmente diferentes é apenas a manifestação de uma perspectiva de classe, burocrática, no qual um dos dois elementos é destruído e permanece apenas na linguagem. O socialismo com exploração, mais-valia, acumulação, pilhagem, aparato burocrático centralizado, partido centralizado e gestor, não é nada mais do que o capitalismo estatizado na prática que aparece como sendo o seu contrário. Essa magia das palavras, porém, não é perceptível imediatamente por alguém que não parte da perspectiva do proletariado e é aqui que reside o problema da reconstituição histórica e perspectiva de classe. Para alguém ler Preobrajenski e perceber a confusão e seu significado, seria preciso possuir valores, sentimentos e concepções antagônicos aos dele. Uma leitura “neutra”, “objetiva”, fundada em determinados métodos e concepções, realizada por portadores de determinados valores e sentimentos, não ultrapassaria o “dado”, ou seja, o discurso de Preobrajenski, o que significaria acreditar nele e tomar seu discurso em favor de um capitalismo estatal como discurso em favor do socialismo.

Este não foi o caso de Tragtenberg, que percebeu o caráter da obra de Preobrajenski e não só dele, mas também de Lênin, Trotsky, Stálin e vários outros, revelando os interesses de classe por detrás da legitimação do capitalismo estatal. Assim, a obra de Tragtenberg tem como mérito partir da perspectiva do proletariado e ao fazer isso revelar que por detrás das produções intelectuais existe uma camada profunda, e, para muitos, invisível, que é determinante no seu processo de produção.

Também é este elemento que permite ao pesquisador reconhecer o valor e significado das iniciativas proletárias e camponesas, tal como Tragtenberg faz quando analisa o caso da Ucrânia, de Kronstadt e dos Sovietes. Os acontecimentos históricos ganham visibilidade ao estarem envolvidos em um processo que é o da auto-emancipação do proletariado e de outros grupos explorados ou oprimidos e, assim, a vida e a morte não são apenas possibilidades abstratas ou fatos registrados, e sim manifestação de seres vivos, idéias, valores e sentimentos. O mesmo vale para as obras culturais, os livros não são vistos apenas como coisas materiais com textos escritos, mas como portadores de projetos, interesses, valores, sentimentos, concepções. Os livros são manifestações de seres humanos e se o livro é vazio, isto se deve ao vazio de quem o escreveu.

Enfim, Maurício Tragtenberg vai além da historiografia oficial e da história dos vencedores, por compartilhar com o proletariado a mesma perspectiva. A sua obra sobre a Revolução Russa, embora introdutória e resumida, reconta e faz reviver a história de uma sociedade que esteve à beira da transformação social e que perdeu a oportunidade, devido à derrota dos explorados diante dos seus “representantes”. Também apresenta uma lição metodológica, a de que o método não é algo reificado e fora das relações sociais, separado de quem o escolhe, produz e/ou usa. Desta forma, Tragtenberg recuperou a consciência teórica da Revolução Russa e fez avançar a consciência da história.
Artigo publicado originalmente em: História Revista (UFG), v. 13, p. 281-286, 2008



* Professor da UEG – Universidade Estadual de Goiás e UFG – Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia/UnB.
[1] Tragtenberg, Maurício. A Revolução Russa. São Paulo, Faísca, 2007; Tragtenberg, M. A Revolução Russa. São Paulo, UNESP, 2007.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Maurício Tragtenberg - Um Sociólogo Libertário


Maurício Tragtenberg - Um Sociólogo Libertário

Por Nildo Viana


Artigo publicado originalmente na Revista Sociologia, Ciência e Vida, São Paulo, Editora Escala, n. 20, Dez. 2008.

Maurício Tragtenberg foi um dos mais importantes sociólogos brasileiros e, apesar de ter seguido uma orientação diferenciada da maioria dos demais colegas de profissão, acabou exercendo grande influência e admiração por parte de muitas pessoas, inclusive alunos e colegas. O sentido da vida e obra de Tragtenberg foi, a nosso ver, a luta pela autogestão.

Tragtenberg nasceu em Erexim, Rio Grande do Sul, no dia 4 de novembro de 1929. Filho de família judaica e camponesa, morava com os avôs e a mãe, pois o pai morreu jovem. A família se transfere para Porto Alegre. Sua experiência escolar foi apenas durante o que era denominado primário. Tragtenberg foi reprovado no primeiro ano em aula de canto. Ele matava aula para jogar futebol ou ir ao cinema (Tragtenberg, 1999). Fora da escola, Tragtenberg gostava de ler e escrever e tinha muitos livros em casa, deixado pelo pai.

Posteriormente, a família muda para São Paulo. Lá existia o Centro de Cultura Democrático e movimentos de jovens judeus, de várias orientações políticas. Neste período voltou à escola, onde o método do castigo era amplamente utilizado. Lá aprendia português, hebraico e iídiche, já que era uma escola judaica. O domínio do iídiche (um alemão medieval que os judeus assimilaram para viver na Alemanha) o possibilitou a ler obras de Rosa Luxemburgo, de Trotsky, dos mencheviques. Foi desta forma que teve acesso a um pensamento socialista não leninista, hegemônico a partir da tomada do poder na Rússia em 1917 e, principalmente, depois da chamada “bolchevização dos partidos comunistas”. Este acervo bibliográfico era oriundo da imigração de judeus poloneses e de outras regiões. Nesta época, Tragtenberg tinha 10 anos e já lia estes e outros autores, em iídiche.

O irmão e a irmã compravam livros, tal como o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, e obra de Stefan Zweig, que ele era proibido de ler e assim lia escondido no telhado da casa. Assim, ele era a “ovelha negra” da família, pois, além disso, não gostava de comércio, elemento fundamental para a sua família judaica e para o qual os irmãos se dirigiam. Com a redemocratização e a legalização do Partido Comunista Brasileiro, passou a existir uma movimentação política e Tragtenberg foi se aproximando do partido. Participou de uma “célula” do partido, juntamente com um sapateiro e um pedreiro. Pouco depois passou a freqüentar a Biblioteca Municipal de São Paulo e a família Abramo. Esta família teve influência em sua formação, já que as pessoas eram cultas e eruditas, possuindo a capacidade de repassar muita informação. Pouco depois se aproxima do Partido Socialista Brasileiro, na época, composto por intelectuais e sem grande influência junto aos trabalhadores. Nesta época, lia o jornal Vanguarda Socialista, editado por Mário Pedrosa, e freqüentava os cursos do Partido Socialista, ministrado por intelectuais como Antônio Cândido, Azis Simão e teve contato com Florestan Fernandes, quando ainda era garçom, Paul Singer, quando era eletricista, entre vários outros futuros grandes intelectuais.

Outra grande influência na formação de Tragtenberg foi o Centro de Cultura Social, de orientação anarquista. Foi neste contexto que ele foi convidado para fazer um quadro explicativo da Guerra Civil Espanhola a pedido dos organizadores de um evento sobre este acontecimento histórico e que uniria anarquistas, comunistas (bolchevistas) e socialistas (social-democratas). Tragtenberg narra que quanto mais lia, mas descobria o papel do Partido Comunista Russo na contra-revolução na Espanha, beneficiando o ditador Franco. Porém, ele não sabia do acordo estabelecido entre os grupos políticos envolvidos para acentuar as concordâncias, e quando fez sua exposição gerou uma forte polêmica.

Tragtenberg acaba rompendo com o PCB, devido, entre outras coisas, a divergência com a linha política (apoio à burguesia progressista contra o imperialismo) e outros elementos, tal como o caso no qual o partido lhe chamou a atenção por ler obras de Marx e Lênin, pois deveria ler apenas os jornais do partido. Continuou sua formação intelectual através dos centros de cultura, Biblioteca Municipal, amizades. Participou de debates e organizações políticas, desde social-democratas passando pelo trotskismo e anarquismo. Certo dia, Antônio Cândido lhe diz que existe uma lei que garante a quem fizer uma monografia, sendo aprovada pela Congregação da universidade, pode ser aceito sem ter formação escolar. Ele apresentou sua monografia (publicada como livro com o título Planificação: Desafio do Século 20) que foi aprovada e passou a fazer parte da esfera acadêmica.

Na esfera acadêmica, do ponto de vista intelectual, produziu várias obras, tal como sua tese Burocracia e Ideologia, no início da década de 1970, e depois produziu inúmeras obras, desde livros, passando por prefácios de outras obras, organização de livros e artigos para revistas e jornais. Inclusive, foi colunista do jornal Notícias Populares, por considerar mais próximo da população trabalhadora. Ele teve vários problemas em diversas universidades, desde o contratempo que teve devido ao regime militar e seu enquadramento no Ato Institucional I (sem grandes motivos, já que ele, nessa época, não militava em nenhum partido ou organização). Como disse em algumas oportunidades, era campeão em ganhar concursos e perder contrato. Passou pelo ensino secundário, pela Fundação Getúlio Vargas, USP, Unicamp, entre outras universidades.

Dentre seus interesses intelectuais, algumas temáticas foram basilares de seu pensamento. A questão da burocracia, desde sua monografia de aspiração à entrada na USP, passando por sua tese doutoral, e diversas obras, sempre foi constante. O estudo da burocracia tinha como grande influência o sociólogo Max Weber, mas também Marx, Bakunin e vários outros estavam envolvidos em suas reflexões sobre o fenômeno burocrático. A questão da autogestão também foi uma das mais permanentes em sua produção e reflexão, ou seja, a negação da burocracia também foi foco de seus estudos. Porém, neste caso também ia além da simples “objeto de estudo”, tratava-se, também de opção política, expressa magistralmente em sua obra Reflexões sobre o Socialismo. As lutas dos trabalhadores, a autonomia e auto-organização do proletariado e campesinato foram uma preocupação constante, tal como se pode perceber em sua produção intelectual. Desde a juventude era um leitor de Rosa Luxemburgo, mas também outros autores marginais ou “malditos”, atraíram o seu interesse (Makhaïsky, Korsch, Bordiga, Pannekoek, Gorter, etc.).

A Burocracia

A preocupação de Maurício Tragtenberg com o fenômeno burocrático tem sua origem na sua inserção na luta política e no PCB. Sem dúvida, a estrutura hierárquica e burocrática do partido chamou sua atenção e a estrutura do culto ao chefe, tal como faziam com Luis Carlos Prestes, o que não lhe passava despercebido (Tragtenberg, 1999). É sugestivo que seu primeiro livro publicado comece como um capítulo cujo título é “O Homem”. Nesta obra, retoma Marx e o tema do trabalho alienado, abordando a natureza humana e sua alienação na sociedade de classes. O homem se desencontrou de sua própria essência ao instaurar a relação de exploração, ao fundar, com a divisão social do trabalho, o domínio de uma classe sobre outra. Assim, Dostoievsky, Kafka, Nietzsche, Kierkegard, Kant, etc., são autores que aparecem para mostrar a situação humana. A questão que Tragtenberg coloca é: em que condições o socialismo pode contribuir para esta superação da alienação? Pergunta fundamental, que encerrará com uma análise do bolchevismo, da burocratização, da Rússia e do capitalismo de Estado. Na sua conclusão apresenta a tese básica que será desenvolvida em suas obras posteriores: a alienação é provocada pela divisão social do trabalho e separação do indivíduo com o cidadão, através do processo de exploração e somente a reintegração do homem na humanidade e em sua essência, através do socialismo, será possível a emancipação humana.

Esta obra já mostrava as preocupações fundamentais de Tragtenberg e algumas respostas preliminares que, devido ao conjunto de influências que ainda carregava – e já se desvencilhava delas – não conseguiu avançar mais, embora já rompesse com o bolchevismo e o capitalismo estatal e via o socialismo como produto da luta operária.

Tragtenberg, em seu segundo livro, Burocracia e Ideologia, irá analisar a formação e características das teorias gerais da administração. Ele faz um histórico que se inicia com a discussão referente ao modo de produção asiático e passa pelas concepções das “harmonias administrativas” de Saint-Simon a Elton Mayo, até chegar ao sociólogo Max Weber e sua sociologia da burocracia. Ele analisa as teorias gerais da administração como ideologias, formas de falsa consciência, representando os interesses das classes dominantes, que são operacionais no nível técnico e que mudam de acordo com a mudança nos processos econômicos e sociais. A sua interpretação de Max Weber e sua relação com a crise da consciência liberal é um dos momentos mais interessantes de sua análise.

No livro seguinte, Administração, Poder e Ideologia, ele continua desenvolvendo esta preocupação fundamental e dedica a analisar a ideologia administrativa das grandes corporações e adentra por questões como a co-gestão, o participacionismo e outras formas que as grandes empresas utilizam para enquadrar e integrar os trabalhadores.

Em sua obra Sobre Educação, Política e Sindicalismo, o autor faz uma severa crítica ao burocratismo reinante nas escolas e universidades, utilizando-se das contribuições de Weber, Lobrot, Selznick, entre outros. Na verdade, o conjunto de artigos (já publicados em outras publicações), revela uma das grandes preocupações intelectuais de Tragtenberg, o processo educacional, mas envolvido com as duas outras preocupações básicas: a burocracia e a autogestão. O sistema de ensino tem como objetivo adequar os indivíduos ao processo de trabalho, mas de tal forma que ele saiba se adequar às mutações sociais. Para isso, é formado todo uma burocracia escolar e pedagógica cujo objetivo é garantir a burocratização de todo o processo de ensino: sistema de exames, conformidade ao programa e docilidade estudantil, através da organização, planejamento e estímulo.

“A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – esse ‘batismo burocrático do saber’. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de ‘exclusão’ que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela ‘exclui’ o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada ‘informação’ que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico” (Tragtenberg, 1990, p. 13).

A Educação Libertária e Autogestão das Lutas Operárias


A educação não tem apenas o papel de reprodução, não expressa apenas a burocracia e a dominação. Inclusive, Tragtenberg foi um dos primeiros a perceber o reprodutivismo da sociologia da educação de Bourdieu. Para Tragtenberg, há espaço para o questionamento e a busca de alternativas no sistema escolar. É por isso que ele irá se dedicar ao que se costuma chamar “pedagogia libertária” ou “autogestão pedagógica”. Assim, ele coloca a opção social (capitalismo ou autogestão social) também no plano educacional: educação burocrática ou educação libertária. A universidade não produz apenas o intelectual orgânico da burguesia, cujo papel é organizar a hegemonia burguesa, inculcando “as formas de sentir, pensar e agir da classe dominante como sendo naturais”, mas, também, o intelectual crítico, que em períodos de ascensão das lutas sociais, pode legitimamente representar as classes desprivilegiadas (Tragtenberg, 1979, p. 9).

Assim, ele analisava os educadores libertários, tal como Francisco Ferrer, e as experiências históricas, tal como a experiência de autogestão pedagógica na Espanha (Tragtenberg, 1980). Uma das preocupações mais importantes de Tragtenberg é com uma educação no qual o aluno possa desenvolver suas potencialidades sem as restrições burocráticas, o autoritarismo professoral e o controle estatal. Assim, ele valorizava a autonomia do indivíduo, autogestão pedagógica, solidariedade e luta pela educação gratuita. Ele pensava não só a crítica da educação burocrática, mas a auto-educação individual e coletiva da classe trabalhadora, levando em consideração que o conhecimento da classe operária no processo de trabalho era expropriado pela classe capitalista e, em determinados momentos históricos, reapropriado.
Esse processo de constituição de uma nova sociedade seria, tal como em Marx, obra da classe operária, de sua auto-educação e auto-organização. Para Tragtenberg, as lutas sociais podem tender para a burocratização, mas a classe trabalhadora reage a este processo criando organizações horizontais, igualitárias, novas relações sociais. A corrosão do capitalismo está no desenvolvimento destas formas de auto-organização do proletariado. Ele retoma Marx para colocar que os trabalhadores lutam por suas reivindicações através da associação e depois passam a lutar pela própria associação. Esta associação (comissões de fábrica, comitês de greve, conselhos operários) é originada na luta de classes e forma o embrião da futura sociedade autogerida.
“O que corrói o capitalismo é a criação dessas organizações, pois elas negam o verticalismo dos organismos existentes, seja o Estado, o partido ou o sindicato. Estes são despojados de sua finalidade de controle da mão-de-obra através da ação direta dos trabalhadores. Por mediação das instituições criadas no processo político-social, a classe operária possui a autogestão das suas lutas, ficando, portanto, a decisão e a execução em mãos dos trabalhadores. Assim, socialismo é entendido aqui como o regime onde a autogestão operária extingue o Estado como órgão separado e acima da sociedade, elimina o administrador dirigente da empresa em nome do capital e, ao mesmo tempo, elimina o intermediário político, isto é, o político profissional” (Tragtenberg, 1986, p. 10).
Assim, esta breve citação deixa espaço para se pensar os pontos fundamentais do pensamento de Tragtenberg sobre o Estado, os intermediários (partidos, sindicatos, políticos profissionais), e sua posição diante do regime chamado “socialismo real”. Em relação ao Estado, Tragtenberg mantém a postura de Marx, isto é, o Estado é um instrumento de dominação de classe. Os partidos, mesmo os que se dizem de esquerda, são dirigidos por castas e não representam os trabalhadores. Os sindicatos, por sua vez, possuem o mesmo papel que os partidos: reproduzir o capitalismo e beneficiar seus dirigentes. O “socialismo real”, na verdade, é um capitalismo de Estado, explorador e reprodutor da burocratização da sociedade (Tragtenberg, 1986). Em outra obra aprofunda esta análise da URSS (Tragtenberg, 1988). Enfim, socialismo é autogestão social e já teve várias experiências históricas:
“Essa é uma tendência que aparece nos momentos decisivos da luta dos trabalhadores: na Comuna de Paris (1871), na Revolução Russa de 1917, nas revoluções alemã e húngara de 1918, na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), no Movimento de Maio de 1968 na Europa e na criação do sindicato Solidariedade na Polônia (1978); toma a forma de comissões de fábrica (sovietes, conselhos), visando dirigir a vida econômica, política e social” (Tragtenberg, 1986, p. 5).
Enfim, podemos dizer que Tragtenberg foi um dos grandes nomes da sociologia brasileira e um dos mais profundos e originais pesquisadores da burocracia e da autogestão, incluindo também o processo educacional e as experiências históricas dos trabalhadores. Mas, mais do que um sociólogo, foi um libertário, ou seja, não separou o indivíduo, ser político vivendo numa sociedade repressiva, marcada por conflitos, dominação e exploração, do acadêmico ou do sociólogo, um mero e frio estudioso das relações sociais. Ele foi além, deixando de lado a ficção da neutralidade científica e se posicionou diante da sociedade, fazendo preponderar o indivíduo libertário, e daí criou o seu diferencial em relação a milhares de outros sociólogos, preocupados tão-somente com a academia e seu destino profissional individual.



Referências Bibliográficas

SILVA, D. e MARRACH, S. Maurício Tragtenberg – Uma Vida para as Ciências Humanas. São Paulo, Unesp, 2001.
TRAGTENBERG, M. (org.). Marxismo Heterodoxo. São Paulo, Brasiliense, 1981.
TRAGTENBERG, M. A Delinqüência Acadêmica. São Paulo, Muro, 1979.
TRAGTENBERG, M. A Revolução Russa. São Paulo, Àtica, 1988.
TRAGTENBERG, M. Administração, Poder e Ideologia. 2ª Edição, São Paulo, Cortez, 1989.
TRAGTENBERG, M. Burocracia e Ideologia. São Paulo, Àtica, 1985.
TRAGTENBERG, M. “Marx/Bakunin”. Escrita Ensaio. Ano V, n. 11/12. 1983.
TRAGTENBERG, M. Memórias de um Autodidata no Brasil. São Paulo, Escuta, 1999.
TRAGTENBERG, M. “O Conhecimento Expropriado e Reapropriado pela Classe Operária: Espanha 80”. Educação e Sociedade. São Paulo, Cortez, Setembro de 1980.
TRAGTENBERG, M. Planificação – Desafio do Século 20. São Paulo, Senzala, 1967.
TRAGTENBERG, M. Reflexões sobre o Socialismo. 3ª Edição, São Paulo, Moderna, 1986.
TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. 2ª Edição, São Paulo, Cortez, 1990.
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Dados da publicação:
VIANA, Nildo. Maurício Tragtenberg, Um Sociólogo Libertário. Revista Sociologia, Ciência e Vida. São Paulo, Editora Escala, Vol. 20, dez. 2008, p. 64-71.